2. O Enfoque Metodológico
Quais são, então, as características que permitiram ao movimento
juvenil judaico-sionista atuar como um profundo fator de efervescência
e mudança na sociedade judaica?
O pesquisador Reuven Kahane reconhece algumas dimensões da
educação não-formal que representariam a base da experiência
educativa dos movimentos:
1. Incorporação livre e voluntária: ninguém é obrigado a participar
das atividades de um movimento. Os valores e a disciplina interna
podem até ser mais rígidos do que na educação formal (já foram, na
época em que o movimento clássico participava ativamente da
colonização e defesa do Estado de Israel), mas estão baseados no
consenso interno e na voluntariedade de pertinência.
2. Moratória: sociólogos definem a moratória como um processo de
adiamento das responsabilidades adultas, o que permite ao
adolescente assumir compromissos que, segundo a sociedade geral,
estão além das suas capacidades. A moratória é o espaço para errar e
recomeçar, sendo que no movimento as atividades são controladas
por pessoas da mesma idade e na mesma situação.
3. Estrutura dupla: os movimentos juvenis são expressão da situação
particular de transição do adolescente entre o espaço familiar e a
sociedade adulta. Por tanto, o movimento se caracteriza pela
convivência de dois (ou mais) tipos de normas. O movimento é
vivenciado pelos chaverim também como um espaço relacional
(grupo de amigos) e também como um espaço de expressão e
discussão de valores e aceitação de compromissos ideológicos,
normas de conduta e códigos de responsabilidade. A convivência
dessas duas percepções permite um alto grau de flexibilidade na
relação do jovem com o movimento, e contribui no seu dinamismo
interno.
4. Atividades multidimensionais: a criança e o adolescente podem, no
movimento juvenil, testar as suas capacidades em diversas
dimensões: intelectual, esportiva, artística, social, criativa,
compromisso com valores, amizade, valentia, etc., sem que exista
uma real hierarquia de dimensões, diferente da educação formal
onde todas as dimensões estão presentes, mas a dimensão
intelectual-individual prevalece.
5. Simetria: como toda organização, existe nos movimentos juvenis
uma hierarquia entre os membros, mas essa hierarquia é relativa e
freqüentemente contestada. Tanto do ponto de vista legal como de
aceitação das regras internas, todos os membros são chaverim com
os mesmos compromissos e direitos. O próprio caráter voluntário do
movimento cria uma simetria entre os membros e uma real
possibilidade de cada um deles de influir e mudar os processos
internos do grupo.
6. Expressividade ativa e atratividade: diferentemente de um espaço
de recreação, onde os participantes consomem atividades preparadas
para eles, no movimento juvenil cada chaver participa de uma ou
outra forma na criação do conteúdo do que se faz. Essa
expressividade de cada um contribui na atratividade do movimento,
já que este é percebido como um espaço de expressão em contato
aberto com outros pares.
7. Desenvolvimento do compromisso com valores: a simetria e a
expressividade do movimento juvenil são a base da sua capacidade
para desenvolver uma consciência ética e um compromisso com
valores. A idéia de uma moralidade universal é mais facilmente
incorporável numa realidade simétrica, onde as normas são validas
para todos os participantes, onde os conceitos de reciprocidade e
justiça tem uma aplicação concreta e quotidiana. A exigência de
cooperação no movimento desenvolve na criança uma visão mais
universal e menos egocêntrica, um melhor conhecimento dos limites
e as diferenças de personalidade e uma consciência mais clara da
própria autonomia e da autonomia dos outros, todos estes
elementos indispensáveis para a formação de uma ética pessoal.
Essas dimensões caracterizam também um alto grau da autonomia
do movimento juvenil. Essa autonomia é, na opinião de Kahane, o
principal motivo de tensão nos movimentos, já que tanto ao nível da
sociedade adulta, como dos próprios bogrim (egressos) do movimento
existe uma tendência constante de limitar essa autonomia, tanto para
manter um modelo de movimento nos seus moldes conhecidos como
para usar a energia e vitalidade do movimento com objetivos
organizacionais que tem mais a ver com a realidade e os objetivos do
mundo adulto. Se é possível falar em crise do modelo do movimento
juvenil, essa crise é provocada principalmente pelas tentativas de limitar
a autonomia dos movimentos e a fixação de parâmetros de ação por
fatores externos ao próprio movimento.