Pessoal,
preciso confessar que achei o que fizemos na viagem bastante interessante. Imaginem: um grupo de jovens viaja mais de 4 horas para visitar uma cidade famosa pela beleza das cachoeiras e pela tranquilidade. Em meio a tudo isso, essas pessoas têm dificuldade de fugir de temas sérios e relevantes socialmente. Por mais que se tente, o tempo inteiro os assuntos ficam sempre voltando e a discussão torna-se tão inevitável que eles sentam para elaborar um projeto. Inteligentes e complexos, compreendem que esta elaboração não poderia ser feita da noite para o dia, então a proposta é seguir alguns passos lógicos, sendo o primeiro deles o estudo.
Para ajudar neste entendimento sobre que ferramenta é esta que temos - a Educação Não Formal - na complexidade com que a tratamos, e mais do que isso, para entender como podemos utilizar da educação para gerar de alguma forma a mudança na sociedade, pensei em criar este blog. Nele, podemos semanalmente postar um novo texto base para tentar definir de fato o que fazemos, e cada vez mais se aproximar do que podemos fazer com tudo isso.
A vantagem de um blog, é que poderemos ter um registro de nossas discussões e os materiais sempre disponíveis online para consulta e reflexão.
Como primeiro texto, escolhi uma "conversa" entre dois educadores que tentam explicar por diferentes visões alguns pontos fortes da educação não formal. São textos curtos, de rápida leitura mas que ajudam a pensar na educação com outro olhar.
Comentem, e vamos ver no que isso vai dar.
PULANDO NA CORRENTEZA: A ARTE DA EDUCAÇÃO JUDAICA NÃO-FORMALJoseph Reimer
Fazendo rafting no rio Colorado em maio do ano passado, eu esperava não ser o único a cair do bote. Ali estava eu sentado ao lado da guia, que tinha muito para nos contar sobre o rio e sobre como descer as corredeiras. Realmente, à medida em que as águas tornavam-se mais turbulentas, pude observar sua habilidade no manejo dos remos. Comecei a acreditar que conseguiríamos realizar a proeza; e logo em seguida passamos por todas as corredeiras. Comecei a relaxar.
De repente Dusty, a guia, disse que todos nós poderíamos pular no rio. Tendo gasto toda minha energia e concentração para permanecer equilibrado no bote, por que agora eu deveria pular na água? Mas foi exatamente isso o que fez a maioria das pessoas no nosso bote. Olhei ao redor e acabei pulando também.
Aqueles primeiros momentos no rio Colorado foram cheios de terror. A correnteza era rápida e poderosa. Eu definitivamente não estava no controle da situação. Porém, à minha volta, todas as outras pessoas boiavam alegremente. Tinha de estar tudo bem. Liberei minha tensão. De repente, o que antes me aterrorizava passou a ser emocionante. Eu estava sob o domínio de um poder muito maior do que o meu. Se pudesse confiar nele, ele me apoiaria. Eu agora enfrentava o rio nos seus termos.
De volta ao bote, percebi que eu pensava que a função da guia fosse a de fazer com que descêssemos as corredeiras e nos ensinar sobre o rio. Dusty, porém, sabia o poder que tem a surpresa e não dissera de antemão nenhuma palavra sobre pular no rio. Ela também conhecia o valor de estar dentro do rio. Uma coisa é ficar em cima de um bote e ouvir informações sobre o rio Colorado; outra coisa totalmente diferente é ficar dentro da água e ser levado pelas correntezas. É desta última experiência que eu .nunca esquecerei. Ele está marcada no meu corpo e na minha mente.
Por analogia, muito da educação judaica formal é semelhante a estar sentado no bote e ouvir informações sobre o rio. O professor conta as histórias e os alunos absorvem novos conhecimentos sobre a história da religião e os costumes dos seus praticantes. Porém, há pouca oportunidade para pular dentro do rio e sentir as correntes poderosas da religião. Não há terror, nem tampouco emoção, apenas mais histórias sobre Deus e nossos ancestrais.
Até a surpresa de Dusty, eu estava sentado alegremente sobre o bote. Tinha que começar dali. Se permanecesse ali sozinho, nunca poderia saber o que estava perdendo. Teria chegado ao meu bar mitzvá, deixado todos orgulhosos por não ter caído e ido embora como um cliente satisfeito. Mas isso não teria causado em mim uma impressão duradoura. É isso que a pesquisa recente realizada por Bethamie Horowitz nos relata sobre grande parte da educação judaica formal fora do âmbito das escolas integrais. Ela não deixa uma impressão permanente. "Os prognósticos mais fortes da judaicidade atual foram encontrados entre as experiências "voluntárias" - aquelas que a própria pessoa escolhe para si, como o movimento juvenil judaico, atividades universitárias judaicas ou uma viagem para Israel". (Ver o seu ensaio neste número da revista para um relato mais amplo da pesquisa).
Chamamos estas experiências voluntárias de "educação judaica não-formal". No entanto, o termo "educação não-formal" é problemático. O que confere a tais experiências o seu poder não é primordialmente a sua informalidade. O que importa é que elas são escolhidas e não prescritas. Contudo, o que realmente é relevante para muitas pessoas são essas primeiras oportunidades de estar dentro do rio, vivenciar o judaísmo com uma corrente viva que os leva para frente, deixando uma impressão duradoura.
Existe aqui um mistério que dificilmente compreendemos. A mente humana registra certas experiências de forma permanente, enquanto outras dificilmente são lembradas. Algumas vivências - especialmente quando alguma coisa deixa um "vestígio na memória" que é permanente - são em geral lembradas anos mais tarde, quando experiências mais rotineiras há muito foram esquecidas.
A meu ver, o poder da educação judaica não-formal está na criação de memórias judaicas permanentes. Quando judeus relutantes ou ambivalentes surpreendem-se e vivenciam - na companhia de colegas nos quais confiam - a experiência de nadar nas correntezas poderosas do judaísmo, eles percebem. Antes que tenham tempo para erguer as defesas usuais, estão parados diante do Muro das Lamentações, achando sua fascinação irresistível. Estão cantando Lechá Dodi no acampamento e a Rainha Shabat dança diante dos seus olhos. Seguram as mãos dos seus amigos no escuro ao dar adeus ao Shabat, à luz de 100 velas de Havdalá. Falam sobre Deus às 2 horas da madrugada. Choram às portas do Yad Vashem quando assimilam o horror do passado. Estão praticando o judaísmo e não se sentem estranhos ou constrangidos ao fazê-lo. É de admirar, pois, que tais momentos se destaquem e não sejam esquecidos?
Esses momentos não se criam por si só. São cuidadosamente planejados, como quando Dusty mandou que pulássemos no rio. A educação não-formal possui seus momentos espontâneos, mas, como um todo, seus programas devem ser planejados cuidadosa e atentamente, como as aulas do currículo escolar. Os educadores não formais - no seu melhor - são planejadores habilidosos das experiências de outras pessoas. Devem possuir conhecimentos suficientes sobre a aprendizagem vivencial, de modo a planificar programas que peguem as pessoas um tanto desprevenidas e, ainda assim, as auxiliem a assimilar e registrar o significado daquilo que vivenciaram.
A comunidade judaica só agora está se conscientizando do potencial educacional pleno da educação não-formal. Entretanto, ele só será concretizado quando houver uma consciência complementar da perícia do educador não-formal. O planejamento de experiências intensas que produzem memórias judaicas significativas é uma forma de arte. em geral não valorizada. No Instituto para a Educação Judaica Não-formal em Brandeis. estamos cultivando essa forma de arte, louvando seus praticantes e preparando uma nova geração de planificadores engenhosos. Esse é um trabalho pioneiro que tem implicações relevantes a longo prazo para criar as memórias que semearão as identidades judaicas da juventude atual.
O Dr. Joseph Reimer é diretor do Instituto para a Educação Judaica Não-formal e professor-doutor do Programa Hornstein na Universidade de Brandeis.
A EDUCAÇÃO JUDAICA NÃO-FORMAL COMO UMA FORMA DE ARTE
Barry Chazan
Caro Joe,
Seu rafting parece ter sido maravilhoso! Como sempre, você conseguiu utilizar muito bem a vida para nos ensinar sobre a vida. E aqui estou eu, preso no meu escritório cheio de livros, tentando "compreender" o que é a educação não-formal. Portanto, deixe-me fazer uma tentativa e apresentar uma conceitualização analítica direta dessa forma de arte que você descreve tão bem.
Como ambos sabemos, a maioria das pessoas pensa que "educação judaica" significa escolas e crianças. Mas essa não é toda a história. A aprendizagem acontece em muitos lugares: no acampamento, no centro comunitário judaico, numa viagem para Israel, num retiro ou ano sabático, num grupo de estudos para adultos. A vida judaica contemporânea clama em altos brados que o campus da educação judaica estende-se muito além dos muros das escolas do ensino fundamental e secundário. Realmente, há outra "escola" com a qual todos nós já tivemos contato - a "escola" da educação judaica não-formal. A meu ver, esta "escola" possui sete características:
1. AUTONOMIA: É algo escolhido livremente.
2. CENTRALIZAÇÃO NO INDIVÍDUO: Faz da pessoa o centro da educação.
3. CENTRALIZAÇÃO NA EXPERIÊNCIA: Educa possibilitando que judeus realmente vivenciem experiências judaicas (ao invés de simplesmente falar sobre elas).
4. INTERAÇÃO: Realça a relação entre o educador e o aprendiz como aspecto central da educação judaica.
5. UM "CURRÍCULO" DE VALORES JUDAICOS: O "currículo" da educação judaica não-formal tem a ver com valores judaicos, comportamentos e crenças que queremos que o judeus interiorizem. Esse currículo não é talhado em pedra, e sim flexível; testes de papel e lápis não podem mensurá-lo.
6. DIVERSÃO E PRAZER: É divertida e pressupõe que o prazer intensifica o aprendizado judaico, ao invés de inibi-lo!
7. UMA ESTIRPE DIFERENTE DE EDUCADOR: OS educadores judeus não formais constituem modelos vivos dos valores, crenças e comportamentos que transmitem, e eles "ensinam" mostrando, fazendo e perguntando ao invés de dizer, fazer preleções ou pose (é inclusive muito provável que usem short, camiseta, tênis e uniformes esportivos!).
A educação judaica não-formal remete a um enfoque da educação que visa o crescimento pessoal dos judeus de todas as idades. Ela ocorre por meio da participação ativa numa diversidade de experiências judaicas. Está enraizada em crenças, valores e comportamentos judaicos básicos. Exige um planejamento cuidadoso - associado a uma grande flexibilidade. Exige educadores que sejam muito interativos e participativos, e que vivenciem o que estão ensinando. Ela não acontece num local específico, mas em toda parte.
A grande questão com a qual ambos nos debatemos é: como fazer com que isso aconteça?
Há dois grandes desafios que devemos encarar nesse contexto. Em primeiro lugar, devemos profissionalizar a área. Nosso colega Mark Charendoff escreve muito bem sobre essa questão neste número da revista Shmá; o Instituto para a Educação Não-formal é um passo importante nessa direção.
Nosso segundo desafio é convencer o mundo judaico contemporâneo e seus líderes de que educação judaica não-formal é realmente importante. Precisamos mostrar-Ihes que ela não é "secundária", "extra", "algo sem valor", "uma decoração de fachada", ou simplesmente "divertida" (estas são palavras que nós dois já ouvimos). Devemos assegurar que a educação não-formal seja um sistema e um contexto no qual as pessoas aprendam, como acontece no caso das escolas e dos roteiros de estudo. Nossos amigos da educação geral aprenderam essa lição - esperamos poder ensinar a mesma lição para nossa família no marco da educação judaica.
Talvez o modo como a vida judaica era tradicionalmente "ensinada" seja a melhor maneira de aprender - a utilização de todo o contexto vital para educar. Como já dissemos um ao outro com tanta freqüência, talvez a verdadeira história da educação judaica seja a história de um grande sistema educacional não-formal.
Joe, continue fazendo o seu rafting, e espero que possamos seguir galgando as cristas dessa nova e grande correnteza!
Saudações,
Barry
Barry Chazan é professor-doutor de educação na Universidade Hebraica de Jerusalém e consultor educacional do Birthright Israel. É autor de livros e artigos sobre educação moral, educação não-formal, educação judaica e o ensino sobre Israel.