quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Hábito da leitura chega ao Campo Limpo de bicicleta

Olha que legal pessoal!

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo (06 de setembro de 2009)

Parece uma típica banca de livros, montada ao lado de um ponto de ônibus movimentado no Campo Limpo, zona sul da capital paulista. "Aqui, meu senhor, pega esse livrinho, é só levar, vai", oferece Luan de Jesus, o atendente. "Quanto custa?", retruca o senhor, imediatamente se esquivando. Em resposta, apenas um sorriso.

Foi no ponto de ônibus na Avenida Carlos Lacerda, na frente do CEU Campo Limpo, que Robson Padial, o Binho - figura conhecida, criador do Sarau do Binho, frequentado pela vanguarda da cultura periférica paulistana -, começou, humilde, a empreitada de "levar livros aos cantos da cidade". Há duas semanas, lançou o projeto Bicicloteca: No Meio do Caminho Tinha um Livro, no qual oferece, de graça, livros a quem não tem acesso a eles. "O cidadão tem de tropeçar no livro. Assim, não larga mais", disse, orgulhoso da criação.

O nome entrega: trata-se de uma biblioteca sobre rodas, iniciativa pioneira na capital - em duas cestas adaptadas na bicicleta de carga, leva cerca de 400 livros, distribuídos a quem quiser. Basta deixar nome, telefone e compromisso de que o devolverá após o fim da leitura.

Nas proximidades dos dois pontos em que foram instaladas as magrelas, perto do CEU e de uma escola pública do bairro - de 191 mil habitantes e duas bibliotecas municipais -, a novidade faz sucesso. Principalmente para quem precisa. Na casa do menino Ederson Santos, de 11 anos, simplesmente não há livros - apenas um único gibi, presente de um vizinho. "Carrego na mochila, para não perder nunca." Estudante da 5ª série, na semana passada pegou o primeiro Monteiro Lobato. "Que capa bonita!", exclamava o garoto, com olhos arregalados. "Vai ser o primeiro de muitos."

Até aqui, 600 livros foram emprestados, cerca de 40 por dia. O acervo, de 4 mil livros, foi conseguido com doações. "Tive a ideia numa ?caminhada literária? até Cananeia. Passávamos de porta em porta, distribuindo livros, então compramos uma bicicleta para carregar", conta Binho. "Aí, deu o estalo."

Além de difundir literatura, as biciclotecas acabam suprindo lacunas. "Procurei na biblioteca da escola um livro sobre cometas, mas não tinha nada. Não imaginava encontrar aqui, antes de pegar o ônibus", disse a estudante Anizia Santos, de 18 anos,com o livro Cometas: da Noite à Ciência nas mãos.

A bicicloteca ficará nos pontos de ônibus da Avenida Carlos Lacerda (nº 678) e da Estrada do Campo Limpo (nº 1.600) por pelo menos seis meses. "O ideal é conseguir apoio para mais bicicletas circularem", disse Binho. "Esse é o sonho, para transformar pela literatura." A conta gotas, está conseguindo: o senhor do início da história, o carpinteiro Antônio Rosa, de 43 anos, que nunca entrou em biblioteca na vida, dessa vez levou o livro Modo de Produção Feudal, de Jaime Pinky - deve ser útil para pesquisa de história, lição de casa no supletivo que cursa.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Plano de educação da cidade de São Paulo

Folha de São Paulo - 13 de agosto de 2009

Tendências/ Debates

Um plano de educação para a cidade de SP

MARIA ALICE SETUBAL

Nosso objetivo central é o de mobilizar os diversos setores para a discussão dos problemas e caminhos para melhorar a educação

NOS PRÓXIMOS dias 15 e 16 de agosto, será lançado oficialmente o Plano de Educação da Cidade de São Paulo, durante a Conferência Municipal de Educação.
Entre suas definições, reunidas em um documento-base, estão previstas várias etapas de mobilização com a participação de educadores na discussão de diretrizes de médio e longo prazo para a educação da cidade.
Sem dúvida, trata-se de um processo inovador, que busca envolver os diversos setores da sociedade em torno do compromisso de alcançar uma educação de qualidade para todos.
Os planos municipais e estaduais de educação são documentos orientadores de políticas de educação, que fixam metas decenais para a melhoria da qualidade e do acesso ao direito à educação.
Desde 2001, com a promulgação do Plano Nacional de Educação, os municípios e Estados brasileiros têm como tarefa elaborar seus planos de educação. A construção de planos de educação também está prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei 9.394/96) e na Constituição Estadual de São Paulo.
Apesar disso, até hoje a cidade de São Paulo não conta com um plano.
Há muitos anos, a construção desse plano é também uma reivindicação de vários fóruns de educação e movimentos sociais que atuam na cidade. A elaboração participativa pode se constituir num processo de influência da sociedade civil da cidade na definição de políticas educacionais.
O documento resultante do processo deve orientar o planejamento das políticas de educação a médio e longo prazo. Planejamento não só da rede municipal mas também do conjunto das redes estadual e federal e das escolas vinculadas à iniciativa privada.
Outro fator fundamental nesse processo é a continuidade. Por ser um plano decenal com força de lei, ele contribui para o enfrentamento da perversa descontinuidade das políticas e possibilita ainda a articulação de questões significativas do cotidiano das escolas e comunidades com a definição de metas e estratégias de políticas públicas.
A propósito, essa conquista nasceu de reivindicações coletivas, pois, desde 1999, em resposta à pressão de fóruns, organizações e sindicatos ligados à educação, várias iniciativas de gestores(as) e vereadores(as) tentaram impulsionar o processo de construção do plano na cidade de São Paulo -sem, no entanto, obter sucesso.
Em 2007, o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider, manifestou ao Grupo de Trabalho de Educação do Movimento Nossa São Paulo o interesse em articular um processo de construção participativa do plano municipal para 2008, como reivindicado pelo movimento e por outras entidades da sociedade civil.
Em março e abril de 2008, o grupo de trabalho organizou duas reuniões com os sindicatos de educação da cidade e uma reunião pública para elaboração de uma proposta de metodologia e cronograma de construção do Plano de Educação da Cidade de São Paulo, para instaurar um processo amplo e participativo, que mobilizasse e fosse significativo para os diferentes setores da sociedade civil e que comprometesse o poder público com sua elaboração e implementação.
Nosso objetivo central é o de mobilizar as escolas, as comunidades e os diversos setores para a discussão dos problemas e caminhos para melhorar a educação na cidade.
Com o lançamento do documento-base do plano no próximo final de semana, iniciam-se as próximas etapas, com discussões nas escolas e comunidades escolares, seguidas de um processo de plenárias nos distritos, elaborado pela comissão executiva do plano, com colaboração dos fóruns de educação já existentes na cidade.
Prevê-se para maio de 2010 a discussão final do plano, durante a Conferência de Educação da Cidade de São Paulo, e posterior encaminhamento para aprovação na Câmara Municipal e Assembleia Legislativa.
Esse é, portanto, um momento de importância fundamental para a conquista de uma educação de qualidade. É o momento de a cidade de São Paulo demonstrar, por meio da participação, sua prioridade concreta nos rumos da educação de nossas crianças e jovens como uma condição necessária para alcançarmos uma sociedade mais justa e sustentável.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Metodologia

Este é um trecho de um texto publicado pela Agência Judaica, escrito pelo Yoel Schvartz. Fala sobre a educação judaica não formal no contexto dos movimentos juvenis. Retirei só o capítulo sobre a metodologia:

2. O Enfoque Metodológico

Quais são, então, as características que permitiram ao movimento
juvenil judaico-sionista atuar como um profundo fator de efervescência
e mudança na sociedade judaica?
O pesquisador Reuven Kahane reconhece algumas dimensões da
educação não-formal que representariam a base da experiência
educativa dos movimentos:
1. Incorporação livre e voluntária: ninguém é obrigado a participar
das atividades de um movimento. Os valores e a disciplina interna
podem até ser mais rígidos do que na educação formal (já foram, na
época em que o movimento clássico participava ativamente da
colonização e defesa do Estado de Israel), mas estão baseados no
consenso interno e na voluntariedade de pertinência.
2. Moratória: sociólogos definem a moratória como um processo de
adiamento das responsabilidades adultas, o que permite ao
adolescente assumir compromissos que, segundo a sociedade geral,
estão além das suas capacidades. A moratória é o espaço para errar e
recomeçar, sendo que no movimento as atividades são controladas
por pessoas da mesma idade e na mesma situação.
3. Estrutura dupla: os movimentos juvenis são expressão da situação
particular de transição do adolescente entre o espaço familiar e a
sociedade adulta. Por tanto, o movimento se caracteriza pela
convivência de dois (ou mais) tipos de normas. O movimento é
vivenciado pelos chaverim também como um espaço relacional
(grupo de amigos) e também como um espaço de expressão e
discussão de valores e aceitação de compromissos ideológicos,
normas de conduta e códigos de responsabilidade. A convivência
dessas duas percepções permite um alto grau de flexibilidade na
relação do jovem com o movimento, e contribui no seu dinamismo
interno.
4. Atividades multidimensionais: a criança e o adolescente podem, no
movimento juvenil, testar as suas capacidades em diversas
dimensões: intelectual, esportiva, artística, social, criativa,
compromisso com valores, amizade, valentia, etc., sem que exista
uma real hierarquia de dimensões, diferente da educação formal
onde todas as dimensões estão presentes, mas a dimensão
intelectual-individual prevalece.
5. Simetria: como toda organização, existe nos movimentos juvenis
uma hierarquia entre os membros, mas essa hierarquia é relativa e
freqüentemente contestada. Tanto do ponto de vista legal como de
aceitação das regras internas, todos os membros são chaverim com
os mesmos compromissos e direitos. O próprio caráter voluntário do
movimento cria uma simetria entre os membros e uma real
possibilidade de cada um deles de influir e mudar os processos
internos do grupo.
6. Expressividade ativa e atratividade: diferentemente de um espaço
de recreação, onde os participantes consomem atividades preparadas
para eles, no movimento juvenil cada chaver participa de uma ou
outra forma na criação do conteúdo do que se faz. Essa
expressividade de cada um contribui na atratividade do movimento,
já que este é percebido como um espaço de expressão em contato
aberto com outros pares.
7. Desenvolvimento do compromisso com valores: a simetria e a
expressividade do movimento juvenil são a base da sua capacidade
para desenvolver uma consciência ética e um compromisso com
valores. A idéia de uma moralidade universal é mais facilmente
incorporável numa realidade simétrica, onde as normas são validas
para todos os participantes, onde os conceitos de reciprocidade e
justiça tem uma aplicação concreta e quotidiana. A exigência de
cooperação no movimento desenvolve na criança uma visão mais
universal e menos egocêntrica, um melhor conhecimento dos limites
e as diferenças de personalidade e uma consciência mais clara da
própria autonomia e da autonomia dos outros, todos estes
elementos indispensáveis para a formação de uma ética pessoal.
Essas dimensões caracterizam também um alto grau da autonomia
do movimento juvenil. Essa autonomia é, na opinião de Kahane, o
principal motivo de tensão nos movimentos, já que tanto ao nível da
sociedade adulta, como dos próprios bogrim (egressos) do movimento
existe uma tendência constante de limitar essa autonomia, tanto para
manter um modelo de movimento nos seus moldes conhecidos como
para usar a energia e vitalidade do movimento com objetivos
organizacionais que tem mais a ver com a realidade e os objetivos do
mundo adulto. Se é possível falar em crise do modelo do movimento
juvenil, essa crise é provocada principalmente pelas tentativas de limitar
a autonomia dos movimentos e a fixação de parâmetros de ação por
fatores externos ao próprio movimento.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Proposta real

Povo,
Eu não sei...
Aliás, eu sei.

Eu acredito em uma coisa: educação não formal. E levaria este projeto a sério. E quero levar.
Então, para mim, tudo isso, toda discussão, estudo e cia, tem um objetivo final:

Criar uma colônia de férias que trabalhe educação não formal para jovens de 6 a 16 anos. É isso?

Não estaremos atrelados a nenhuma instituição. Seremos a nossa própria instituição.

Tendo isso explicitado e com consentimento de todos, proponho que comecemos a trabalhar em nós mesmos, que comecemos a pensar no queremos, onde iremos chegar, e o que precisamos.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Active Learning

Olá pessoal!
Venho acompanhando o blog, ainda não consegui explorar todo o site que o Dan mandou...
Vendo uns materiais sobre liderança que recebi, cheguei numa página bastante interessante, que trabalha o conceito de "active learning": http://reviewing.co.uk/index.htm. Tem algum material sobre o ciclo de Kolb (http://reviewing.co.uk/research/learning.cycles.htm), inclusive algumas críticas a sua teoria. O site exige um pouco de paciência, pois é meio bagunçado...
Fica a dica!
Beijos

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Secretaria de Educação/ SP

Para acompanhar as políticas públicas de educação na cidade de São Paulo...


Blog do secretário - http://aschneider.wordpress.com/

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Educação formal e Educação Não Formal

Pessoas, seguindo a ideia de postar umas fontes de educação não formal judaica, coloco mais um. Peço desculpas porque ele faz parte de um texto maior (muito grande pra postar aqui), então quem quiser me avisa que eu mando o texto todo. Ele fala antes sobre educação Formal, Educação Não Formal e Educação Informal. Mas acho que vale começarmos por esse por ser de diferenciação. Depois podemos nos aprofundar em cada uma delas.
Comentem!

EDUCAÇÃO FORMAL E NÃO FORMAL

Por Jayme Fucs-Bar

EXISTEM DOIS TIPOS DE EDUCAÇÃO
Não existe nesses dois tipos de modelos duas educações diferentes, existe uma só educação na qual o objetivo geral é a socialização do indivíduo.
Os dois modelos não só vêm a compensar um ao outro como também ampliar o campo de aprendizagem.
A QUEM CABE A RESPONSABILIDADE NA EDUCAÇÃO?
Tanto o colégio como os centros comunitários ou os variados órgãos existentes, têm uma forma única de reafirmar a responsabilidade da sociedade na educação dos seus indivíduos. Sem dúvida nenhuma a ampliação e o fortalecimento da educação está ligado diretamente a verbas qualificadas. O perigo da educação de se formar elitista é muito grande, e a forma de garantir que todas as camadas da sociedade possam participar desse processo amplo de educação como uma prioridade nacional.
EXEMPLO ISRAELENSE DE ATUAÇÃO CONJUNTA: COLÉGIO SAFIT- KFAR MENACHEM
Safit é um colégio secundário, onde a maioria de seus alunos são de Kibutzim e Moshavim e olim de Kiriat Malachi. O colégio Safit está dividido em duas formas de atividades como colégio obrigatório que funciona no turno da manhã e colégio interno voluntário no turno da tarde e noite.
AS NORMAS:
O colégio obrigatório está baseado nas normas do ensino nacional, sendo fiscalizado pelo ministério da educação. Seus objetivos visam a competição e aquisição da Bagrut ( vestibular ), tendo atividades de profissionalização para educados que não conseguem acompanhar o ritmo das exigências.
O ENSINO:
O colégio usa de vários meios para ampliar a qualidade de seu ensino como biblioteca, sala de leitura, educação especial, orientadora educacional, orientador para cada turma... Os alunos têm obrigações, deveres e direitos claros e específicos, o colégio obrigatório é dirigido por uma diretoria de ensino.
A EDUCAÇÃO NÃO FORMAL DENTRO DO COLÉGIO:
Na parte da tarde o colégio se torna voluntário, com atividades difusas amplas não obrigatórias.Em Safit o colégio voluntário funciona 3 vezes por semana e as atividades existentes são: cursos, música, esporte, atividades culturais, trabalhos na estufa, passeios, atualidades e etc. As atividades são organizadas pelos educados junto com os orientadores e coordenada por um coordenador da educação.
OBJETIVOS UNIFICADOS:
Os objetivos são de criar uma comunidade juvenil onde os jovens assumam de certa maneira a responsabilidade da comunidade, como na participação das vaadot de trabalho de manutenção como limpeza, jardinagem, organização de atividades e etc.
Os dois modelos se compensam entre si e estão dentro de uma visão educacional única, vindo inclusive a atender as novas necessidades do Movimento Kibutziano.
A RELAÇÃO ENTRE OS DOIS MODELOS:
Esses dois modelos procuram constantemente manter a harmonia e o equilíbrio, pois a tensão faz parte do seu dinamismo. Em Safit o conflito e a tensão existentes ocorre principalmente nas turmas de pré vestibular e vestibular, que de um lado precisam usar a energia para as provas de Bagrut e do outro liderar a comunidade juvenil.
RELAÇÃO PROFISSIONAL:
Na dinâmica do colégio se vê a clara posição entre os professores que exigem e dão como prioridade os estudos e do coordenador do centro comunitário que dá prioridade as atividades sociais. A função da diretoria nesse caso é de suma importância, é ela que vai manter o equilíbrio necessário nos casos de conflito.A discussão é algo inevitável e é ela que cada vez mais ajuda a aprimorar os dois modelos num mesmo campo de ação.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Ideias que deviam ser copiadas

Essa dá pra importar fácil: http://www.teachforamerica.org
Recomendo uma breve leitura na missão e tudo o mais.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sim, crianças podem gostar de ler

Queridos,
Segue texto de Ignácio de Loyola Brandão, que saiu no Estado. Não tem tanto a ver com educação não formal, mas com mudar o país e acreditar, coisas que compartilhamos.
Depois comento os textos que o Fisberg deixou.
Beijos


SIM, CRIANÇAS PODEM GOSTAR DE LER
Ignácio de Loyola Brandão

A cada passo, o espanto. Por fora parecia uma Escola normal, o muro alto vedando a visão. Transposto o portão, o inesperado, a absoluta limpeza. Logo, outro assombro, não há uma só grade. Antes de começar a visita, fui ao banheiro. Imaculado. Desentendi. Não é uma Escola pública em um dos bairros mais afastados da capital do Piauí? Um dos mais violentos, abandonados? Não é uma Escola para alunos carentes, aqueles a quem a vida pouco dá, ao contrário, vai tirando, sugando? Nenhuma grade para proteger do mundo exterior, nenhum grafite nas paredes e nem uma janela quebrada. A admiração cresceria a cada passo, relevando-me a diversidade brasileira, nossas incoerências e contradições.Levado pelas diretoras Osana Morais e Ruthneia Costa, percorri classes, recebido por alunos sorridentes, de alto-astral, que me cantaram canções alegres. Já fui a muita Escola de periferia em São Paulo e pelo Brasil. alunos tristes, baixa autoestima, professores desiludidos, agredidos, humilhados. Instalações precárias, banheiros porcos, falta de carteiras, de material, paredes repletas de inscrições ininteligíveis, grades para evitar roubos e depredações, cozinhas precárias, merendas destinadas a fomentar subnutrição. Síntese do ensino brasileiro. Não nesta Escola chamada Casa Meio Norte! Tudo é diferente, e como!

Por que decidi vir, abandonando outros compromissos? Recém-chegado de Belém, ainda no aeroporto me disseram: "Nessa Escola, cada aluno lê entre 20 a 30 livros por mês." Loucura, impossível! Vamos lá, quero ver! Não acreditei, até chegar. Na Casa Meio Norte, na Cidade Leste, as crianças têm paixão por livros e pela escrita. Cada sala de aula tem uma sacola com 50 ou mais livros, não há uma biblioteca central. O livro faz parte do cotidiano. As crianças descobriram que, por meio da literatura, podem escapar da áspera realidade em que estão envolvidos e à qual fatalmente seriam conduzidos. Um presente sem futuro. Tornado futuro pela Escola, pela leitura e pela escrita.

Cidade Leste vive sob o domínio da violência, há todo tipo de foras da lei, do traficante ao ladrão, ao ladrãozinho, ao futuro ladrão. Esses meninos da Casa estariam destinados a se tornarem "mulas", transportando drogas, ou estariam nas ruas pedindo esmolas, roubando. Estariam soltos, abandonados, enviados à morte prematura. Há pais aqui que são do tráfico, da delinquência. Há quem não conheça o pai, há quem não saiba quem é sua mãe. Todavia, quando entramos e vemos aqueles rostos orgulhosos, sabemos, tudo indica, estão salvos. Nessa Casa comem quatro refeições por dia, quando o normal, fora dessas paredes, seria não comerem nada. Para ajudar a manter a Casa, o jornal Meio Norte, do Grupo de Comunicação Meio Norte, um dos principais de Teresina, entra com apoio, patrocina material e uma série de realizações. Acreditam que responsabilidade social pode gerar mudanças.

Assim que entrei, uma menina de 10 anos, Mariana Garcês apanhou o caderno e leu um poema. Depois me deu a folha. Autografada, claro!

Se você do vício conseguir sair feche a porta para eu não cair. Se você na Escola conseguir entrar deixe a porta aberta para eu passar.

Contei minha história, a do Menino Que Vendia Palavras, meu livro infantil. Revelei que também fui pobre, lia muito, escrevia. A guarda estava aberta, havia um ponto em comum, as privações da infância. A cada passo, um aluno queria me mostrar um texto. Numa das classes, Anderson, dos mais tímidos da Escola, encontrou coragem, me disse também um poema. Não conseguiu terminar, chorou de emoção. Todos queriam falar dos livros que leram, e foram tantos. A turma - são 680 alunos - lê mais do que muito universitário da USP ou da PUC, do que muito menino de classe média e média alta do ensino privado. Eles gostam de ouvir e de contar histórias. Muitos não sabem se verão o pai no dia seguinte, habituados ao cotidiano de violência que permeia lá fora. Muitos desses pais são aqueles que garantem a "segurança" da Casa Meio Norte. Certo dia, uma gangue de outro bairro roubou equipamentos. Quatro horas depois os equipamentos "estavam de volta", resgatados. Há um conceito diluído no ar: Não mexam com a Escola!

Muitas vezes, na reunião de pais e mestres, professores deparam-se com homens vestidos corretamente, camisas de mangas compridas para esconder tatuagens ou cicatrizes, participando, dando opinião, perguntando. Eles não querem que os filhos sejam como eles. E os filhos não querem ser. Essa Escola de ensino aplicado, que existe há dez anos, está realizando aquilo que todos desejam, e responde à pergunta que ouvimos pelo Brasil inteiro: como fazer a criança ler? Como tirá-las das ruas, dar identidade, ensinar cidadania? Aquela meninada sabe mais de cidadania do que muito ministro e milhares de parlamentares federais, estaduais, municipais, envolvidos em maracutaias sem fim.

Seminários, convenções, simpósios, debates de "alto nível", comissões de governo. Não tem adiantado ao longo de décadas. Basta vir a Teresina e conversar com os 28 professores da Casa, um grupo de abnegados apaixonados por livros, histórias, fantasia. Ainda que com o pé inteiro na realidade. Os olhos daquela gente são iluminados. Aqui entra o paradoxo, a estanha maneira pela qual tudo funciona no Brasil e que nenhum ministro, secretário, educador, técnico, profissional consegue alcançar entender. Soluções ao contrário, o mundo funcionando ao reverso. A rebours, diria Huysmans. Há o Brasil aparente e o Brasil oculto com pessoas admiráveis sobre as quais não cai um foco de luz e elas não precisam, são alimentadas por sonhos e ideais. Brasil que caminha.

Ignácio de Loyola Brandão é jornalista, escritor, roteirista de televisão e cronista do jornal O Estado de São Paulo.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Um primeiro passo...

Pessoal,
preciso confessar que achei o que fizemos na viagem bastante interessante. Imaginem: um grupo de jovens viaja mais de 4 horas para visitar uma cidade famosa pela beleza das cachoeiras e pela tranquilidade. Em meio a tudo isso, essas pessoas têm dificuldade de fugir de temas sérios e relevantes socialmente. Por mais que se tente, o tempo inteiro os assuntos ficam sempre voltando e a discussão torna-se tão inevitável que eles sentam para elaborar um projeto. Inteligentes e complexos, compreendem que esta elaboração não poderia ser feita da noite para o dia, então a proposta é seguir alguns passos lógicos, sendo o primeiro deles o estudo.
Para ajudar neste entendimento sobre que ferramenta é esta que temos - a Educação Não Formal - na complexidade com que a tratamos, e mais do que isso, para entender como podemos utilizar da educação para gerar de alguma forma a mudança na sociedade, pensei em criar este blog. Nele, podemos semanalmente postar um novo texto base para tentar definir de fato o que fazemos, e cada vez mais se aproximar do que podemos fazer com tudo isso.
A vantagem de um blog, é que poderemos ter um registro de nossas discussões e os materiais sempre disponíveis online para consulta e reflexão.
Como primeiro texto, escolhi uma "conversa" entre dois educadores que tentam explicar por diferentes visões alguns pontos fortes da educação não formal. São textos curtos, de rápida leitura mas que ajudam a pensar na educação com outro olhar.
Comentem, e vamos ver no que isso vai dar.



PULANDO NA CORRENTEZA: A ARTE DA EDUCAÇÃO JUDAICA NÃO-FORMAL
Joseph Reimer

Fazendo rafting no rio Colorado em maio do ano passado, eu esperava não ser o único a cair do bote. Ali estava eu sentado ao lado da guia, que tinha muito para nos contar sobre o rio e sobre como descer as corredeiras. Realmente, à medida em que as águas tornavam-se mais turbulentas, pude observar sua habilidade no manejo dos remos. Comecei a acreditar que conseguiríamos realizar a proeza; e logo em seguida passamos por todas as corredeiras. Comecei a relaxar.
De repente Dusty, a guia, disse que todos nós poderíamos pular no rio. Tendo gasto toda minha energia e concentração para permanecer equilibrado no bote, por que agora eu deveria pular na água? Mas foi exatamente isso o que fez a maioria das pessoas no nosso bote. Olhei ao redor e acabei pulando também.
Aqueles primeiros momentos no rio Colorado foram cheios de terror. A correnteza era rápida e poderosa. Eu definitivamente não estava no controle da situação. Porém, à minha volta, todas as outras pessoas boiavam alegremente. Tinha de estar tudo bem. Liberei minha tensão. De repente, o que antes me aterrorizava passou a ser emocionante. Eu estava sob o domínio de um poder muito maior do que o meu. Se pudesse confiar nele, ele me apoiaria. Eu agora enfrentava o rio nos seus termos.
De volta ao bote, percebi que eu pensava que a função da guia fosse a de fazer com que descêssemos as corredeiras e nos ensinar sobre o rio. Dusty, porém, sabia o poder que tem a surpresa e não dissera de antemão nenhuma palavra sobre pular no rio. Ela também conhecia o valor de estar dentro do rio. Uma coisa é ficar em cima de um bote e ouvir informações sobre o rio Colorado; outra coisa totalmente diferente é ficar dentro da água e ser levado pelas correntezas. É desta última experiência que eu .nunca esquecerei. Ele está marcada no meu corpo e na minha mente.
Por analogia, muito da educação judaica formal é semelhante a estar sentado no bote e ouvir informações sobre o rio. O professor conta as histórias e os alunos absorvem novos conhecimentos sobre a história da religião e os costumes dos seus praticantes. Porém, há pouca oportunidade para pular dentro do rio e sentir as correntes poderosas da religião. Não há terror, nem tampouco emoção, apenas mais histórias sobre Deus e nossos ancestrais.
Até a surpresa de Dusty, eu estava sentado alegremente sobre o bote. Tinha que começar dali. Se permanecesse ali sozinho, nunca poderia saber o que estava perdendo. Teria chegado ao meu bar mitzvá, deixado todos orgulhosos por não ter caído e ido embora como um cliente satisfeito. Mas isso não teria causado em mim uma impressão duradoura. É isso que a pesquisa recente realizada por Bethamie Horowitz nos relata sobre grande parte da educação judaica formal fora do âmbito das escolas integrais. Ela não deixa uma impressão permanente. "Os prognósticos mais fortes da judaicidade atual foram encontrados entre as experiências "voluntárias" - aquelas que a própria pessoa escolhe para si, como o movimento juvenil judaico, atividades universitárias judaicas ou uma viagem para Israel". (Ver o seu ensaio neste número da revista para um relato mais amplo da pesquisa).
Chamamos estas experiências voluntárias de "educação judaica não-formal". No entanto, o termo "educação não-formal" é problemático. O que confere a tais experiências o seu poder não é primordialmente a sua informalidade. O que importa é que elas são escolhidas e não prescritas. Contudo, o que realmente é relevante para muitas pessoas são essas primeiras oportunidades de estar dentro do rio, vivenciar o judaísmo com uma corrente viva que os leva para frente, deixando uma impressão duradoura.
Existe aqui um mistério que dificilmente compreendemos. A mente humana registra certas experiências de forma permanente, enquanto outras dificilmente são lembradas. Algumas vivências - especialmente quando alguma coisa deixa um "vestígio na memória" que é permanente - são em geral lembradas anos mais tarde, quando experiências mais rotineiras há muito foram esquecidas.
A meu ver, o poder da educação judaica não-formal está na criação de memórias judaicas permanentes. Quando judeus relutantes ou ambivalentes surpreendem-se e vivenciam - na companhia de colegas nos quais confiam - a experiência de nadar nas correntezas poderosas do judaísmo, eles percebem. Antes que tenham tempo para erguer as defesas usuais, estão parados diante do Muro das Lamentações, achando sua fascinação irresistível. Estão cantando Lechá Dodi no acampamento e a Rainha Shabat dança diante dos seus olhos. Seguram as mãos dos seus amigos no escuro ao dar adeus ao Shabat, à luz de 100 velas de Havdalá. Falam sobre Deus às 2 horas da madrugada. Choram às portas do Yad Vashem quando assimilam o horror do passado. Estão praticando o judaísmo e não se sentem estranhos ou constrangidos ao fazê-lo. É de admirar, pois, que tais momentos se destaquem e não sejam esquecidos?
Esses momentos não se criam por si só. São cuidadosamente planejados, como quando Dusty mandou que pulássemos no rio. A educação não-formal possui seus momentos espontâneos, mas, como um todo, seus programas devem ser planejados cuidadosa e atentamente, como as aulas do currículo escolar. Os educadores não formais - no seu melhor - são planejadores habilidosos das experiências de outras pessoas. Devem possuir conhecimentos suficientes sobre a aprendizagem vivencial, de modo a planificar programas que peguem as pessoas um tanto desprevenidas e, ainda assim, as auxiliem a assimilar e registrar o significado daquilo que vivenciaram.
A comunidade judaica só agora está se conscientizando do potencial educacional pleno da educação não-formal. Entretanto, ele só será concretizado quando houver uma consciência complementar da perícia do educador não-formal. O planejamento de experiências intensas que produzem memórias judaicas significativas é uma forma de arte. em geral não valorizada. No Instituto para a Educação Judaica Não-formal em Brandeis. estamos cultivando essa forma de arte, louvando seus praticantes e preparando uma nova geração de planificadores engenhosos. Esse é um trabalho pioneiro que tem implicações relevantes a longo prazo para criar as memórias que semearão as identidades judaicas da juventude atual.
O Dr. Joseph Reimer é diretor do Instituto para a Educação Judaica Não-formal e professor-doutor do Programa Hornstein na Universidade de Brandeis.

A EDUCAÇÃO JUDAICA NÃO-FORMAL COMO UMA FORMA DE ARTE

Barry Chazan

Caro Joe,
Seu rafting parece ter sido maravilhoso! Como sempre, você conseguiu utilizar muito bem a vida para nos ensinar sobre a vida. E aqui estou eu, preso no meu escritório cheio de livros, tentando "compreender" o que é a educação não-formal. Portanto, deixe-me fazer uma tentativa e apresentar uma conceitualização analítica direta dessa forma de arte que você descreve tão bem.
Como ambos sabemos, a maioria das pessoas pensa que "educação judaica" significa escolas e crianças. Mas essa não é toda a história. A aprendizagem acontece em muitos lugares: no acampamento, no centro comunitário judaico, numa viagem para Israel, num retiro ou ano sabático, num grupo de estudos para adultos. A vida judaica contemporânea clama em altos brados que o campus da educação judaica estende-se muito além dos muros das escolas do ensino fundamental e secundário. Realmente, há outra "escola" com a qual todos nós já tivemos contato - a "escola" da educação judaica não-formal. A meu ver, esta "escola" possui sete características:
1. AUTONOMIA: É algo escolhido livremente.
2. CENTRALIZAÇÃO NO INDIVÍDUO: Faz da pessoa o centro da educação.
3. CENTRALIZAÇÃO NA EXPERIÊNCIA: Educa possibilitando que judeus realmente vivenciem experiências judaicas (ao invés de simplesmente falar sobre elas).
4. INTERAÇÃO: Realça a relação entre o educador e o aprendiz como aspecto central da educação judaica.
5. UM "CURRÍCULO" DE VALORES JUDAICOS: O "currículo" da educação judaica não-formal tem a ver com valores judaicos, comportamentos e crenças que queremos que o judeus interiorizem. Esse currículo não é talhado em pedra, e sim flexível; testes de papel e lápis não podem mensurá-lo.
6. DIVERSÃO E PRAZER: É divertida e pressupõe que o prazer intensifica o aprendizado judaico, ao invés de inibi-lo!
7. UMA ESTIRPE DIFERENTE DE EDUCADOR: OS educadores judeus não formais constituem modelos vivos dos valores, crenças e comportamentos que transmitem, e eles "ensinam" mostrando, fazendo e perguntando ao invés de dizer, fazer preleções ou pose (é inclusive muito provável que usem short, camiseta, tênis e uniformes esportivos!).
A educação judaica não-formal remete a um enfoque da educação que visa o crescimento pessoal dos judeus de todas as idades. Ela ocorre por meio da participação ativa numa diversidade de experiências judaicas. Está enraizada em crenças, valores e comportamentos judaicos básicos. Exige um planejamento cuidadoso - associado a uma grande flexibilidade. Exige educadores que sejam muito interativos e participativos, e que vivenciem o que estão ensinando. Ela não acontece num local específico, mas em toda parte.
A grande questão com a qual ambos nos debatemos é: como fazer com que isso aconteça?
Há dois grandes desafios que devemos encarar nesse contexto. Em primeiro lugar, devemos profissionalizar a área. Nosso colega Mark Charendoff escreve muito bem sobre essa questão neste número da revista Shmá; o Instituto para a Educação Não-formal é um passo importante nessa direção.
Nosso segundo desafio é convencer o mundo judaico contemporâneo e seus líderes de que educação judaica não-formal é realmente importante. Precisamos mostrar-Ihes que ela não é "secundária", "extra", "algo sem valor", "uma decoração de fachada", ou simplesmente "divertida" (estas são palavras que nós dois já ouvimos). Devemos assegurar que a educação não-formal seja um sistema e um contexto no qual as pessoas aprendam, como acontece no caso das escolas e dos roteiros de estudo. Nossos amigos da educação geral aprenderam essa lição - esperamos poder ensinar a mesma lição para nossa família no marco da educação judaica.
Talvez o modo como a vida judaica era tradicionalmente "ensinada" seja a melhor maneira de aprender - a utilização de todo o contexto vital para educar. Como já dissemos um ao outro com tanta freqüência, talvez a verdadeira história da educação judaica seja a história de um grande sistema educacional não-formal.
Joe, continue fazendo o seu rafting, e espero que possamos seguir galgando as cristas dessa nova e grande correnteza!
Saudações,
Barry


Barry Chazan é professor-doutor de educação na Universidade Hebraica de Jerusalém e consultor educacional do Birthright Israel. É autor de livros e artigos sobre educação moral, educação não-formal, educação judaica e o ensino sobre Israel.